segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Ser gay e cristão ou "Os incomodados que se mudem"

"Venham a mim todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu lhes darei descanso. Tomem sobre vocês o meu jugo e aprendam de mim, pois sou manso e humilde de coração, e vocês encontrarão descanso para as suas almas. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve." Mateus 11:28-30

   Praticamente toda pessoa não-heterossexual sempre soube que assim o é desde a tenra idade. Claro que não seria diferente comigo. A diferença se dá pela maneira como cada pessoa internaliza e recebe tal informação sobre si mesma. Bom, em meu caso, desde até mesmo antes da puberdade, eu já desconfiava de que era diferente. E, desde aquela época, isso quase nunca me foi problema, para dizer a verdade. Quero dizer, eu ainda não compreendia muito bem que eu era o que a sociedade considera como "gay", mas nunca me senti desconfortável com esses sentimentos. Bem... Apenas uma vez.
   Paralelamente à minha consciência de minha sexualidade, desde bem pequenino convivo num ambiente cristão. Não nasci na Igreja, mas foi praticamente isso: eu tinha apenas dois anos quando fui levado pela minha mãe a uma igreja pela primeira vez e, assim, batizado. Depois, foi uma questão de meses até meu pai começar a frequentar lá também. Minha família foi, então cristianizada: viramos a típica família que vai todo domingo à igreja, que faz reuniões de leitura da Bíblia semanalmente e que ora sempre antes de dormir e das refeições. Pois bem. Sabendo disso, explicarei como antes, para mim, funcionou esse negócio de ser gay e cristão ao mesmo tempo, e como eu lido com isso hoje.

   Como já disse, quase nunca me senti desconfortável com meus sentimentos homoafetivos. Nem mesmo por conta da minha fé. Mas isso era porque eu não misturava as duas coisas. Minha fé ficava numa estante diferente da minha sexualidade, num quarto diferente, do outro lado da minha mente. Bom, até o momento em que a mistura das duas acabou sendo inevitável. Era 2009. Acampamento da minha igreja. O palestrante da noite era um cara que se apresentava como ex-garoto de programa e ex-gay. Sim, "ex-gay". Essa foi a primeira vez que ouvi a homossexualidade ser apresentada de forma negativa na minha comunidade. Quero dizer, sempre soube que as pessoas consideravam isso pecado e não sei mais o quê, mas nunca tinha ouvido alguém falar sobre isso de forma tão clara e explícita. Até aquele momento. Aquilo me atingiu de uma forma que já não me era mais possível ter minha sexualidade sem confrontá-la com minha fé. Foi então que começou: lá mesmo, comecei a negar algo que eu nunca negara antes, minha homossexualidade; comecei a me acusar, a me ver com nojo, a considerar os meus pensamentos pecaminosos. Senti-me distante de Deus, acusado por Ele.
   Depois dessa odisseia de sentimentos negativos, fui para casa decidido a mudar. Ah, ledo engano. Não durei nem uma semana nesse novo "estilo de vida". Mas, por incrível que pareça, fiquei um ano continuando a ser gay mas ainda negando minha identidade. Porém, logo descobri uma ferramenta que mudaria minha visão sobre o assunto para sempre: o Tumblr. Nessa rede social, em que tenho uma conta até hoje, foi onde aprendi a tirar todo o peso negativo que a palavra gay carregava até então para mim. Consegui voltar a não sentir mais asco dos meus próprios pensamentos. E, graças a esse milagroso site e seus usuários, consegui me aceitar finalmente e tomar coragem para me assumir. Sim, foi nessa época que me assumi. Outra odisseia: apaixonei-me pelo meu melhor amigo da escola, tive quatro terríveis meses de brigas com meus pais, longas conversas, que me ajudaram muito, com atenciosos professores e coordenadores, e ganhei novas amizades. Mas, mais que isso, houve a abertura de um novo mundo para mim. Nunca me sentira tão livre. Agora eu podia ser sincero comigo mesmo e com as pessoas ao meu redor. Todavia, havia um problema: tendo me aceitado como sou, como conciliaria minha fé e minha sexualidade?
   Apesar de ter conhecido exatamente nessa época a teologia inclusiva, uma teologia que interpreta a Bíblia de maneira contextualizada e não fundamentalista, e por isso não condena a homossexualidade, a relação entre minha fé e minha sexualidade já estava muito fragilizada e conflituosa para eu tentar qualquer reconciliação. Minha fé era fraca, quase imatura. Foi então que passei a conhecer mais do ateísmo, levando-me a encontrar conforto nesse estilo de pensar. Acabei aceitando os conceitos do ateísmo, já que nele não havia restrições acerca da minha sexualidade. No final, passei três anos da minha vida como ateu. Mas então, nas férias do meio do ano passado, tudo mudou.
   Eu estava em outro acampamento da igreja, dessa vez indo por obrigação dos meus pais. Fui, aproveitei o que consegui com meus amigos e, para não me estressar, decidi ficar com a mente aberta. Foi então que, graças a isso, na última noite, na apresentação da peça de teatro, redescobri minha espiritualidade e minha fé. Foi lá que me senti, pela primeira vez, acolhido e amado pelo Deus que eu pensava ter me abandonado, ter me esquecido. Finalmente consegui me sentir plenamente feliz, plenamente satisfeito, plenamente em paz comigo mesmo e com o meu Deus. Consegui sentir algo que sempre desejei na minha vida: o amor incondicional de Jesus pela minha vida. Isso não tem preço.
   Muito bem. Depois disso, voltei para casa uma outra pessoa. Uma pessoa melhor. Uma pessoa de bem com a vida, de bem com as outras pessoas, de bem com minha fé e com Deus. E, o melhor de tudo: sem abdicar da minha sexualidade para isso. Sim, isso mesmo. Para algumas pessoas isso pode parecer algo chocante ou impossível: "Como pode alguém se converter ao cristianismo sem abdicar do pecado? Como pode haver um cristão que ainda vive sua vida como gay ao invés de lutar contra isso?" Para responder a essas pessoas, digo que, primeiro, como vocês já leram, lutei sim um tempo contra minha homossexualidade, mas isso de nada me adiantou. Segundo, queiram vocês ou não, aprovem vocês ou não, não acredito que a homossexualidade seja um pecado. Como eu sei disso? Pelo simples fato de que tenho isso como convicção em meu coração, assim como o conhecimento necessário para entender que há interpretações bíblicas coerentes e válidas que mostram como as Escrituras, na verdade, não condenam relacionamentos consentidos e duradouros entre pessoas do mesmo sexo. Para mim, o que é pecado é a promiscuidade, o sexo barato e puramente carnal, sem amor, sem compromisso. Bom, mas isso é assunto para outra discussão; apenas peço que leiam sobre a teologia inclusiva, caso queiram entender mais do assunto. Sério, leiam mesmo.

   Ser, ao mesmo tempo, gay e cristão não é nem nunca foi uma tarefa fácil. Descobri isso vivendo isso. Às vezes parece que somente quem o é também me entende. Afinal, de ambos os lados me sinto incompreendido. Para as pessoas de fora da Igreja, minha fé cristã é sinônimo de ser conivente com as opressões que a religião institucionalizada causa; para as pessoas de dentro da Igreja, minha homossexualidade é um pecado grave e, por isso, para muitos, não sou digno de ser chamado cristão. Isso tudo é opressivo.
   Muitas pessoas de fora da Igreja, principalmente LGBTs que abandonaram suas comunidades de fé e/ou militantes de movimentos sociais, dizem e consideram que o cristianismo é só mais um instrumento de opressão dos dias atuais, uma religião preconceituosa e conservadora que precisa ser extinta. E que, se uma pessoa pertencente a uma minoria se identifica e possui tal fé, ela está dando aval a um sistema que a oprime; está sendo conivente com seus opressores. A realidade, porém, é bem diferente disso. Há de se dizer, primeiro, que esse tipo de discurso, que deslegitima, invalida e aponta minha fé como apoiadora de um sistema opressor, é que é opressor e ofensivo. Segundo, temos que reconhecer que nem sempre aquilo que a religião institucionalizada dita como norma, dogma e doutrina correta, reflete aquilo que é o verdadeiro Evangelho. O Evangelho é a mensagem de Deus ao mundo, através do seu filho Jesus, nosso Redentor e Salvador, e do seu Espírito Santo, nosso Consolador e Intercessor. O Evangelho é a mensagem de amor, paz, misericórdia, perdão, redenção, salvação e reconciliação com Deus. Isso nada tem a ver com o ódio e o preconceito promovidos, infelizmente, por muitos pastores e denominações que se auto-intitulam cristãs, mas que não passam de promotoras de hipocrisia, abuso e opressão.
   Dito isso, posso dizer: minhas fé e espiritualidade não são instrumentos de opressão. Não são algo de que preciso me libertar. Pelo contrário, são elas que me libertam. O meu Deus não me oprime, Ele me ama como sou. É claro que há um sistema opressivo por trás da religião formal do cristianismo, mas, como já expliquei, ele não tem nada a ver com o verdadeiro Evangelho e nem com a fé e a espiritualidade de cada cristão. O problema não é a minha fé individual, o meu relacionamento com o meu Deus. Qualquer um que diz o contrário e invalida esses aspectos da minha vida está me oprimindo.
   Por outro lado, temos as pessoas de dentro da Igreja (ou, talvez e inclusive, "igreja"). Não vou generalizar, é claro, mas não erro quando digo que a maioria dos líderes de denominações ditas cristãs não se esforçam para que a imagem que o mundo tem da Igreja de Cristo mude. É rara uma igreja séria, que não preste um desserviço às populações marginalizadas da sociedade, principalmente à comunidade LGBT. Parte-me o coração ver igrejas expulsando seus membros e negando-lhes um relacionamento verdadeiro com Deus por conta de sua orientação sexual ou identidade de gênero. Homossexuais sendo expulsos de templos, bissexuais oprimidos e condenados pelos seus irmãos de fé, transexuais sendo chamados de "filhos do diabo", etc. O pior ainda é quando tais igrejas não necessariamente oprimem diretamente um membro LGBT, mas propõem tentativas de "cura" e de "reabilitação sexual"; como se, primeiro, isso fosse possível e, segundo, não fosse também um tipo de opressão. Isso já deu. Chega. E é hora dessas igrejas chamadas cristãs pararem de pregar esse cristianismo falso, diabólico, abusivo, que só afasta a comunidade LGBT de perto do Evangelho de Cristo, de Deus e de uma espiritualidade saudável, sem abusos. É hora de nós, cristãos compromissados com a Mensagem, nos levantarmos, denunciarmos e nos pronunciarmos sobre tais absurdos, e mostrarmos ao mundo o amor incondicional por vidas que deveríamos ter enquanto cristãos. Nosso papel aqui não é julgar. É amar, amar incondicionalmente. É acolher, abraçar, chorar junto, alegrar-se junto. A Igreja deveria ser o refúgio dos oprimidos, e não lugar de opressão, afinal Jesus diz, em João 6:37, que qualquer um que vir a Ele, de maneira nenhuma Ele lançará fora. Chega de violência e discriminação dentro da Casa de Deus!

   Mas, para quem ainda está incomodado com tudo isso, só digo algo: sinto muito. Sinto muito se, para você, eu ser cristão e gay ao mesmo tempo seja errado. Sinto muito se você acha que não posso viver minha fé de maneira devota sem reprimir minha sexualidade, ou o contrário. Sinto muito, mas não preciso pedir autorização a você para viver minha fé e a minha sexualidade da maneira que acho melhor simplesmente porque isso é um direito meu, quer você goste ou não. Os incomodados que se mudem.

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